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Comida e felicidade –  Implicações para a obesidade

comida e felicidade

04 maio Comida e felicidade –  Implicações para a obesidade

 Artigo de especialista –

 Profa. Dra. Ana Lydia Sawaya –

 Unifesp/ CREN –

Comida e felicidade. A filosofia grega nos diz que a felicidade se alcança pela virtude e que a pessoa boa é feliz e quem faz o mal é infeliz. A tradição cristã afirma algo semelhante, ao dizer que a consciência tranquila leva à felicidade e que o estado permanente de quem é feliz é a paz. “A paz de Cristo esteja sempre com todos vocês” dizia sempre São Paulo.

Nas Bem-Aventuranças, Jesus revela que a condição para ser feliz não é ter uma vida fácil e tranquila, mas ao contrário, a experiência de felicidade é ainda mais evidente em meio às tribulações que sofrem aqueles que são bons, puros de coração, honestos, justos, e por isso choram, são rejeitados, insultados, odiados (pelos que não são felizes…). Em linhas muito breves, este é de acordo com Sócrates, Platão, Aristóteles e toda a tradição bíblica o caminho para ser feliz.

Comida feliz?

Recentemente, porém, a indústria e comércio de alimentos e bebidas, seguindo a filosofia que embasa a economia moderna – “o homem é objeto de consumo” – e a mentalidade hedonista consequente, introduziu no mercado, através de propaganda maciça, alimentos e bebidas altamente palatáveis ou “saborosos”, afirmando que eles nos trarão felicidade. Eis alguns exemplos clamorosos, facilmente reconhecíveis: “Abra a felicidade! ”, “Amo muito tudo isso!”, “Um sabor de quero mais” ou ainda “Um sabor inesquecível”, “Exageradamente gostoso” (de fato é viciante…); ainda um outro que acabou sendo proibido em alguns países: “Deprimido? Coma chocolate!”

Fim do Consumo Excessivo

Bem ilustrativa é a propaganda de um restaurante citada pelo autor americano David Kessler em 2009 no seu best-seller “Fim do Consumo Excessivo”:

Não se trata de agarrar e dar uma mordida, mas da mordida agarrar você. Porque quando Friday’s [o nome do restaurante] prende seu apetite, ele não o solta mais. Nós vamos carregar no aroma até suas papilas linguais explodirem como fogos de artifício. (…) Vamos sonhar novos sabores e pratos que nunca foram criados antes. Três pratos em uma refeição. [1] Os antigos chamariam isso de o caminho para a gula…

Obesidade no mundo

Como se podia esperar, cerca de um terço da população mundial tem excesso de peso e já sabemos que essas pessoas ficarão muito mais doentes, com diabetes e doenças cardiovasculares, e morrerão muito mais cedo que as magras; além de causar um gasto enorme para o sistema de saúde. A Organização Mundial da Saúde vem afirmando em suas publicações que esse quadro é devido a todo o processo industrial e comercial de estímulo ao prazer e ao vício alimentar e à satisfação momentânea, gerado pela propaganda. E qual é o fator que mais aumenta as vendas? Ligar o produto, ilusoriamente, à felicidade.

Comida rica em açúcar, gordura e sal

A ciência revela que o ingrediente que mais causa prazer é o açúcar ou o sabor doce, seguido pela gordura e o sal. A indústria sabe bem disso e, por isso, bebidas açucaradas, bolachas recheadas, bolos, chocolates vendem tanto. Por isso também procede a afirmação segundo a qual “tudo o que é gostoso é proibido”. O McDonald’s tentou mudar e começou a vender salada, mas suas vendas caíram muito (esquecendo que o frequentador assíduo das suas lojas muitas vezes já é um viciado) e o novo CEO voltou ao velho hambúrguer com refrigerante e batata frita cheia de açúcar (mesmo se o consumidor não sabe), gordura e sal e as vendas voltaram a crescer no último ano.

Políticas públicas

Que fazer? Do ponto de vista da saúde pública cresce a evidência de que o caminho é aquele da regulamentação e proibição como aconteceu com o cigarro, mas o lobby das indústrias (em particular no Brasil) e o comércio de alimentos em restaurantes torna esse caminho ainda mais espinhoso. No caso do cigarro tratava-se de um produto supérfluo e único, enquanto que a confusão entre comidas e bebidas palatáveis e a “felicidade” determina todo um ambiente obesogênico, envolvendo muito produtos e diversos fatores condicionantes.

É verdade que, do ponto de vista fisiológico, o açúcar, a gordura e o sal estimulam os centros cerebrais do prazer, acalmam, causam sonolência e saciedade, diminuem a ansiedade, mas explorar comercialmente estas propriedades coisifica o ser humano, tira-lhe a liberdade e a capacidade de decidir como acontece exatamente com tudo aquilo que gera vício.

Educação alimentar

E as escolas, as famílias e cada um de nós o que podem fazer? Primeiro, combater por via da educação a redução do ser humano a “um objeto de consumo”, e cuidar especialmente quando este vive em situação de fragilidade e solidão; lembrar-se também de que uma verdadeira educação alimentar nunca pode ser teórica, mas exige uma educação prática que acompanhe as pessoas a mudar hábitos no cotidiano, como por exemplo, organizar o tempo para cozinhar em casa.

Nesse sentido, o Guia Alimentar para a População Brasileira recentemente publicado pelo Ministério da Saúde dá muitas dicas, entre elas:

Três orientações sobre o ato de comer e a comensalidade:

  • Comer com regularidade e com atenção. Procure fazer suas refeições diárias em horários semelhantes. Evite “beliscar” nos intervalos entre as refeições. Coma sempre devagar e desfrute o que está comendo, sem se envolver em outra atividade.
  • Comer em ambientes apropriados. Procure comer sempre em locais limpos, confortáveis e tranquilos e onde não haja estímulos para o consumo de quantidades ilimitadas de alimentos.
  • Comer em companhia. Sempre que possível, prefira comer em companhia, com familiares, amigos ou colegas de trabalho ou escola. Procure compartilhar também as atividades domésticas que antecedem ou sucedem o consumo das refeições. [2]

 

Preparar refeições saudáveis em família, isto sim traz felicidade!

Notas:

[1] KESSLER, David A. The End of Overeating: taking control of the insatiable american appetite. Emmaus (PE): Rodale Books, 2010.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014, p. 101.